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Introdução à Animais Venenosos e Peçonhentos

O que são animais venenosos e animais peçonhentos?

Seres do Reino Animalia que possuem veneno ou peçonha. São mais comuns por serem das classes artrópodes, alguns peixes, anfíbios e principalmente os répteis.

Mas, qual a diferença entre um animal venenoso e um peçonhento?

Há duas formas para classificarmos entre essas duas classes. Uma delas é considerar animal venenoso aquele que possui uma substância tóxica, mas não inocula diretamente na vítima, por isso pode ser chamado também de passivo. É o exemplo da maioria dos sapos, que possuem a glândula de veneno, mas só é contaminado quem tocar na sua pele diretamente. O animal peçonhento é aquele que possui também a substância tóxica, mas tem também uma estrutura para inocular o veneno na presa, por isso também pode ser chamado de ativo. É o caso das cobras, aranhas e escorpiões.

Outra linha de classificação é considerar animal peçonhento aquele que possui substâncias nocivas ao ser humano, e venenoso aquele que prejudica a saúde de outros animais.

E o que um médico tem que saber desses animais?

Dependendo da região em que o médico esteja atuando é comum encontrar casos de picadas desses tipos de animais. Muitos dos venenos e peçonhas são letais ou possuem uma ação que trará sequelas severas para o resto da vida do indivíduo. É importante que o médico saiba qual soro usar e quais as regiões anatômicas mais comuns de ocorrer essas picadas. Pode ser que eu ache que isso seja exigir demais da profissão, mas seria muito importante também  o médico saber reconhecer qual gênero que picou o seu paciente, pois não é incomum que os mesmos tragam esses animais, após a picada, para a unidade de saúde para auxiliar no diagnóstico. E conhecimento a mais nunca é demais.

O que é veneno e peçonha?

Veneno e peçonha são substâncias tóxicas encontradas em animais e usadas para a defesa e ataque dos mesmos, geralmente para conseguirem dominar a presa e come – la. Mas, como qualquer secreção orgânica, ela é feita por células. Então, todo o processo de leitura dos genes no DNA, transcrição do código genético, tradução, exocitose da macromolécula e sua estocagem no lugar apropriado são sequências normais na produção das toxinas. Elas são compostas por lipídeos, carboidratos e proteínas, íons, etc.

Se são substâncias orgânicas compostas por carboidratos, lipídeos, proteínas, íons, blablabla, por que ao entrarem em contato com o nosso organismo trazem consequências tão severas?

Porque elas se comportam no nosso organismo como antígenos e desencadeiam diversas respostas nos nossos sistemas dependendo da sua ação. Por exemplo, há toxinas com ações citotóxicas, hemotóxicas, miotóxicas e neurotóxicas.

  • Ação citotóxica: toxinas com essa natureza podem ocasionar destruição das células e tecidos e posteriormente necrose. É encontrada na cascavel:
Necrose Causada por Cascavel

Necrose Causada por Cascavel

  • Ação hemotóxica: toxinas com essa função têm o poder da hemólise, elas destroem a membrana plasmática das hemácias e liberam a hemoglobina. É óbvio que isso causa a morte se não tratado rapidamente. Além disso, os vasos sanguíneos perdem a capacidade de reter o sangue e a capacidade de coagulação e o sistema imunológico ficam comprometidos (Wikipedia).  Ocorre também hemorragia interna.
Jararaca Brincando de se Camuflar

Jararaca Brincando de se Camuflar

  •  Ação miotóxica: toxinas com essa ação são capazes de causar lesões nas fibras esqueléticas e liberar enzimas e mioglobina para o soro, causando dor, muita dor, dor pra caramba (mialgia). Tudo isso é depois eliminado na urina. O fato da mioglobina ser excretada pela urina é notada pela cor que a urina tem, pois ela ficará avermelhada, ou até marrom  torce pro seu médico não ser daltônico.  Esse quadro indica que a musculatura esquelética está sofrendo necrose. Essa ação é encontrada também na peçonha da cascavel.
  • Ação neurotóxica: toxinas com essa ação afetam diretamente o sistema nervoso. Elas são capazes de inibir a ação da acetilcolina, ocasionando bloqueio neuromuscular. A cascavel, de novo, possui peçonha com essa ação.
É importante também registrar que o veneno de anfíbios são bioacumulativos. Indivíduos que por algum motivo mantêm contato frequente com esses animais podem apresentar envenenamento mesmo sem ter ingerido ou tocado diretamente o animal. A toxina deles acumula – se principalmente no fígado, pois é composta por macromoléculas grandes o suficiente para não conseguirem ser metabolizadas.
Sapo Venenoso

É possível dizer que quanto mais colorido, mais venenoso é o sapo, pois sua cor "avisa" aos predadores que ele é muiiiiito venenoso e por isso não é uma boa ideia come - lo.

Há também alguns artrópodes que possuem partes de seus corpos que são nocivas. É o caso da asa da borboleta e das cerdas do abdome da caranguejeira. Essas cerdas são antígenos que podem ficar suspensas no ar e, ao entrar em contato com a mucosa da vítima, pode desencadear alergia e até mesmo inxoticação.

Ok. Eu entendi. Os venenos e peçonhas atuam principalmente nos sistemas nervosos, circulatório e também nos músculos. Eles são capazes de afetar órgãos como o coração e até as células do sangue, e todos os outros tecidos em geral, provocando desde reações inflamatórias até necroses! O que fazer com uma vítima dessas toxinas?

Após feita a anamnese e constatar que o paciente foi picado por um animal é necessário saber qual animal foi esse antes de tomar qualquer decisão. Pode ser que o paciente já chegue dizendo que foi uma cascavel, por exemplo, mas o médico não pode confiar totalmente nisso e já aplicar o soro. A aplicação do soro errado pode trazer consequências que danificam mais ainda o quadro clínico do indivíduo, como choque anafilático. Para montar o diagnóstico basta esperar que os primeiros sinais e sintomas apareçam, pois cada peçonha e veneno desenvolve um quadro estereotipado.

Os soros recebem o nome de acordo com o gênero do animal de onde veio a peçonha. Podemos citar os principais:

  • Soro elapídico: picada de coral verdadeira
  • Soro botrópico: picada de jararaca
  • Soro antilaquético: picada de surucu
  • Soro anticrotálico: picada de cascavel

Para montar o diagnóstico, deve – se esperar os sintomas característicos de cada veneno antes de determinar qual medicamento (soro) será aplicado no paciente. Diagnóstico, tratamento… Falta a prevenção. Como se prevenir dessas picadas?

Respeitar o espaço dos animais é o primeiro passo a ser ensinado na educação em saúde sobre animais peçonhentos e venenosos. No entanto, muitos deles são hoje o que chamamos de animais sinantrópicos.

Animais sinantrópicos são aqueles que convivem com o ser humano sem que ele queira (ou pelo menos, não deveria querer!!). Baratas, sapos, cobras, aranhas, escorpiões… Seres humanos normais evitam o contato com esses bichinhos por saberem dos perigos que eles podem trazer a sua saúde. Então, por mais que uma das maiores formas de prevenção seja EVITAR o habitat desses animais, dependendo de onde o indivíduo more, é difícil.

Mas, sempre relembre da importância de RESPEITAR o animal. Depois de muitos anos de evolução, ele não desenvolveu veneno, presas, peçonhas para atacar o ser humano e faze – lo perder pernas, braços, morrer de dor, etc. Eles precisam ser venenoso e peçonhentos para VIVER! Matar sapos, cobras, aranhas e todos esses animais definitivamente não é uma medida de prevenção. O animal não atacará a menos que se sinta ameaçado de alguma forma. Dependendo da situação, é possível perceber quando o animal atacará ou não, pois a maioria possui comportamento deimático, isto é, de alguma forma ele aumenta sua estrutura para parecer maior e intimidador e mostrar como ele é perigoso. Viu algo assim? Corre!

Sapo Inflando

O sapo infla, infla, infla...

É importante salientar também que a região anatômica comumente picada pelos animais peçonhentos são os membros inferiores. Daí dizer que o uso de calçados como botas é mais do que indicado para indivíduos que frequentam matas ou fazem trilhas.

Outro aspecto que pode ser abordado na educação em saúde é ensinar quando deve ou não fazer o torniquete. Esse procedimento só deve ser realizado quando se sabe do tipo de ação do veneno ou peçonha. Quando a ação é neurotóxica, então o torniquete é uma ferramenta absurdamente importante! Pois impede que a toxina atinga proporções maiores no corpo. Mas, se a ação for necrosante, a realização do torniquete acelerá o processo de necrose na região afetada! Porque ao dificultar a circulação a toxina fica concentrada no local e sua ação se intensifica. Se não sabe a natureza da toxina, o melhor é não realizar o torniquete e apenas se dirigir ao médico o mais rápido possível.

Todo ser humano reage à toxina da mesma forma? 

Não. Ninguém possui o mesmo tipo de experiência de doença. Cada paciente apresenta um quadro específico e essa generalização só empobrece a medicina.

Mas, sem contar aspectos socioeconômicos e culturais, é claro que há faixas etárias que apresentam quadros clínicos mais graves do que outras. Crianças e idosos são os casos mais graves.

Indivíduos picados por filhotes podem apresentar um envenenamento mais complexo do que aqueles picados por animais adultos. Isso porque o filhote ainda não sabe inocular a quantidade certa da toxina, e muitas vezes inocula tudo que tem estocado! Enquanto o adulto sabe dosar isso e não, necessariamente, inocula todo seu reservatório.

O Brasil todo sofre de acidentes com esses animais?

Sim. Não existem todas as espécies em todo o Brasil, mas em toda região do país há uma ou mais espécie de animal peçonhento ou venenoso que causa acidentes.

Quem são eles?

  • Aranha Armadeira: É a aranha mais venenosa do MUNDO!!!!!!! Sua peçonha possui ação neurológica e é grave em criança e idosos. Em adultos, pode causar priapismo.
Aranha Armadeira

Aranha armadeira na posição de armada que foi a que lhe concedeu esse nome

  •  Aranha Caranguejeira (ou tarântula): sua peçonha causa mialgia.
Aranha Caranguejeira

Aranha Caranguejeira

  •  Aranha Marrom: sua peçonha causa graves necroses na região picada. E ela é bem pequenininha, e isso com certeza aumenta mais ainda o seu índice de acidentes.
Picada de Aranha Marrom

Picada de Aranha Marrom

  •  Escorpião Amarelo: sua peçonha é capaz de levar o indivíduo ao óbito por causa de parada respiratória. Sua ação é neurotóxica e a picada desse artrópode causa dor intensa no local que se espalha por todo o corpo.
Escorpião Amarelo

Escorpião Amarelo

  • Jararaca (família Viperidae, gênero Bothrops): possui ampla distribuição no Brasil e é responsável por 85% dos acidentes causados por cobras no estado de São Paulo. Sua peçonha causa necrose e pode causar a morte devido à falência renal, hipotensão e hemorragia intracraniana.
  • Cascavel (família Viperidade, gênero Crostalus): é conhecida pelo seu chocalho. Como já foi dito, seu veneno possui ação neurotóxica, citotóxica e miotóxica.
Chocalho da Cascavel

Chocalho da Cascavel

  •  Coral Verdadeira (família Elapidae): não são responsáveis por um número muito grande de acidentes, pois são animais que vivem em matas e apenas quem realmente vai a esses lugares que possuem chance de ser picado. No entanto, sua peçonha é altamente perigosa e possui ação neurotóxica.
Coral Verdadeira

Coral Verdadeira

  •  Surucucu (família Viperidade): é a maior cobra peçonhenta do Brasil. Sua peçonha é altamente letal! Tem ação neurotóxica e também tem poder de necrose. A sorte do brasileiros é que são poucos os acidentes com essa cobra, já que não são muitos que frequentam o seu habitat.
Surucucu

Surucucu

  • Há outras cobras importantes também como falsa coral, cobra cipó, cobra d’água, parelheira, etc. Mas, elas não são peçonhentas, então melhor deixar só os biólogos interessados as estudarem, porque médico já tem outras coisas importantes a estudar.

Mais uma dúvida: como que a toxina é necrosante? O que ela tem que faz isso?

Como já foi dito, ela é composta por macromoléculas orgânicas, como as proteínas, certo? Então, entre essas proteínas há enzimas proteolíticas. Pronto, isso explica de onde vem a necrose.

Nosso corpo é basicamente feito de proteína, se uma quantidade de toxina que destrói essas proteínas for injetada no nosso corpo, a tendência é a necrose.

Só existem animais peçonhentos e venenosos terrestres?

Não.

Há também serpentes marinhas! E corais, água – viva, esponjas, algas, ouriços… Os animais aquáticos também podem ser venenosos ou peçonhentos, a principal forma de reação contra a toxina desses bichos é dermatite. Claro que há peçonhas e venenos aquáticos de importantíssima relevância médica, mas os casos não são tão frequentes, já que não é todo mundo que fez curso de mergulho pra ir tão próximo a eles.

Referências
Todas as informações foram obtidas no Curso de Verão da Universidade de Guarulhos no curso “Animais Venenosos e Peçonhentos” ministrado pelo Professor Mestre Silas Lobo nos dias 30 e 31 de janeiro de 2012.

Introdução à Parasitologia

A parasitologia é um ramo das Ciências Biológicas que analisa os parasitas, seus hospedeiros e a respectiva relação entre eles. Ela já é estudada há muito tempo. Há registros no antigo Egito de que possivelmente um dos faraós tenha até morrido de malária! Sem contar as inúmeras múmias encontradas que fossilizaram indivíduos com casos típicos de leishmaniose tegumentar.

Por que um médico tem que estudar isso?

A ciência da Parasitologia como forma integral, apenas um médico nerd curioso ou voltado à essa área tem que saber tudo. Isso porque, a Parasitologia é um campo muito complexo que vai além da saúde humana. É sabido que existem muiiiiiiiiiiitos mais parasitas relevantes para a saúde animal do que para a nossa. No entanto, embora o número seja menor, não quer dizer que eles não existam e prejudiquem a nossa saúde.

O médico precisa entender da parasitologia médica porque só ela pode dar os conhecimentos fundamentais para a montagem do diagnóstico. É ela também que vai explicar os sintomas e sinais que o doente vai apresentar, auxiliando no processo da terapêutica. Pra concluir, sem ela é impossível que o médico saiba sua profilaxia, e a prevenção todos sabem que é a melhor solução essencial para uma boa medicina. Resumindo: estudar parasitologia é importante no diagnóstico, tratamento e prevenção.

Então, é só estudar o parasita e o hospedeiros e acabou? Desse jeito, vou ser um bom médico?

Não, porque saber um pouco de História e Geografia também é importante na compreensão dessa ciência.

Por exemplo, o platelminto Schistosoma mansoni, causador da esquistossomose, é originário da África. Ele veio parar no Brasil na época da escravidão com a vinda dos negros pra cá. Como a escravidão foi predominante no litoral, então a incidência até hoje dessa doença é maior nessa região e nos locais em que a presença do escravo foi significante. Tudo isso porque no Brasil, o parasita encontrou um clima semelhante ao africano e com condições hidrográficas (presença de lagoas) favoráveis à sua sobrevivência. Um médico sabendo disso, pode mais rapidamente suspeitar de um caso de esquistossomose quando trabalhando no nordeste, do que trabalhando no sul. É ÓBVIO que com as correntes migratórias, o turismo nas regiões endêmicas e tudo mais contribuem para que essa realidade não seja exata e estática. Nada impede de ocorrer um surto de esquistossomose em um lugar que nunca teve escravidão, mas será um fato isolado.

Para começar o estudo de parasitologia (parasito = parasita, logia = estudo) temos que começar pelo óbvio: o que é um parasita?

O parasita (patógeno ou agente etiológico, tanto faz) é qualquer coisa no universo  qualquer ser que possua uma relação de parasitismo (sééério?????) com determinado hospedeiro de uma espécie diferente da sua. Pode ser uma bactéria, fungo, planta, protozoário, artrópode, e até mesmo o vírus (ele não é considerado um ser vivo, mas é um parasita celular obrigatório). Eles necessitam de um outro ser para sobreviver e desenvolver suas atividades metabólicas e se reproduzir, e necessariamente causa um prejuízo para o ser que é parasitado. Se esse prejuízo não existir, daí não se trata de parasitismo, mas de um comensalismo, outra relação ecológica. E se o hospedeiro se beneficiar, podemos até mesmo falar de mutualismo.

São vários os casos de mutualismo que existem no corpo humano. As bactérias intestinais são o exemplo número 1 disso. Compondo a famosa flora intestinal, elas próprias se beneficiam e também o hospedeiro, quando auxiliam na digestão dos alimentos e competem com outras bactérias que poderiam causar algum tipo de patologia. (Vale lembrar que quem se beneficia disso, além das bactérias e do hospedeiro, é o fabricante do Yakult).

Hospedeiro, hospedeiro, hospedeiro… O que é isso?

Como qualquer outro ser vivo, o parasita possui um ambiente específico para sobreviver. Não dá pro ser humano viver dentro de um vulcão, como uma ameba no Congresso Brasileiro, oh wait, isso é possível… no meio do oceano. Esse ambiente é o que chamamos de hospedeiro.

Existem dois tipos de hospedeiro: definitivo e intermediário. No definitivo, é onde o parasita vai se reproduzir de forma sexuada, e no intermediário onde a reprodução é assexuada.

Podemos também classificar um outro tipo de hospedeiro: o acidental. Quando algum ser vivo, sem querer querendo acidentalmente, entra no meio do ciclo de vida do parasita e oferece – se como um bom hospedeiro para esse parasita, ele pode sofrer os efeitos de uma patologia. O exemplo clássico é a cisticercose, quando o ser humano ingere o ovo da Taenia solium, sendo que no ciclo quem faz esse papel é o porquinho.

Não pegue o papel dele!! Lave bem os alimentos!

Todas as pessoas que possuem um mesmo tipo de parasitismo vai ter um quadro igual de desenvolvimento da patologia?

Não. Nenhum quadro clínico vai ser igual ao outro, por mais que sejam pessoas da mesma classe social, etnia, nacionalidade, gênero, idade, GÊMEOS UNIVITELINOS ! Cada ser humano possui sua individualidade e isso deve ser sempre levado em conta no processo terapêutico.

Mas, quando analisamos um grupo de doentes pode – se perceber que, alguns possuem sintomas e sinais mais agravantes do que outros. Isso porque pra cada indivíduo a relação de parasitismo representa uma dependência metabólica variada. Ou seja, dependendo da quantidade de parasitas e das condições fisiológicas do indivíduo, ele pode ser mais ou menos afetado pelo patógeno.

Para exemplificar: o protozoário Trichomonas vaginalis é o causador da tricomoníase. Essa patologia acomete tanto homens quanto mulheres, porém é normal que o homem não apresente sintomas, e quando isso acontece, geralmente são leves. Já pra mulher, não. Quando ela está infectada os sintomas são explícitos e fedidos. Pode – se perceber então que, nesse caso, o gênero conta como um requisito para as diferentes formas de manifestação dessa relação de parasitismo.

Como que os parasitas afetam o hospedeiro?

O parasita “perfeito” seria aquele que não afetaria seu hospedeiro, por um motivo óbvio: se o hospedeiro morrer, o parasita morre junto. Só que não é isso que acontece, para o parasita ser considerado um parasita, ele TEM que prejudicar o hospedeiro. As ações dos parasitas sobre os hospedeiros podem ser:

  • Espoliativa: o parasita usufrui dos recursos do hospedeiro como sangue e nutrientes. Caso comum é a lombriga o Ascaris lumbricoides:

Lombriga Dando um Rolê pelo Intestino

  • Tóxica: o metabolismo do parasita produz substâncias que são tóxicas ao hospedeiro. Como por exemplo o tétano. A bactéria Clostridium tetani produz a neurotoxina tetanopasmina, que pode levar o ser humano à morte.

    Clostridium tetani

  • Irritativa: o local em que o parasita infecta causa algum tipo de irritação ao hospedeiro. O popularmente conhecido verme Oxiúro é irritantemente típico exemplo disso.

Ação irritante do Oxiúro

  • Mecânica: o parasita causa algum trauma, danifica ou lesiona células e tecidos do hospedeiro. O ancylostoma é um verme que possui um tipo de gancho nas extremidades, daí ele se prende nas vilosidades do duodeno e “suga” todos os nutrientes que precisa.

Ancylostoma: Verme com Ganchos na Extremidade

  • Enzimática: o parasita produz enzimas que aceleram a degradação (catalisa) a região em que está infectando. Algumas bactérias são capazes de produzir essas proteínas.

Modalidades de Parasitismo

Número de Hospedeiros Monoxeno: Há apenas um hospedeiro no ciclo de vida do parasita. Heteroxeno: Há mais de um hospedeiro no ciclo de vida do parasita.
Tempo de Permanência O parasita pode ter apenas um hospedeiro definitivo. O parasita pode ter um hospedeiro intermediário e outro definitivo. Em alguns casos, há também o hospedeiro acidental.
Especificidade Parasitária Certos parasitas são considerados estenoxenos, pois possuem uma altíssima especificidade com seu hospedeiro. Certos parasitas são considerados eurixeno, pois eles conseguem parasitar mais de uma espécie de hospedeiro diferente.
Localização Podem ser ectoparasitas, se parasitarem do lado de fora do hospedeiro (como as pulgas). Podem ser endoparasitas, se parasitarem internamente o hospedeiro. Dentro dos endoparasitas, há os enteroparasitas que ficam no intestino e os hemoparasitas, que parasitam o sangue (corrente sanguínea).

Como que o ser humano consegue se infectar com os parasitas?

Os mecanismos de transmissão de doenças parasitárias para quem quer muito pegar uma dessas doenças são: fecal – oral, oral, vetorial, congênita, sexual, percutânea ou transcutânea.

Fecal – oral: de alguma forma, há ingestão de fezes contaminadas com a forma de proliferação dos parasitas. Por mais bizarro que isso possa ser, acontece. As crianças são as mais afetadas por esse tipo de contaminação. Geralmente, é uma forma de auto – contaminação, devido à falta de higiene.

Oral: ingestão direta da forma infestante do parasita.

Vetorial: contaminação através de um vetor.

Congênita: durante a gravidez ou após o parto, a mãe pode deixar de herança ao filho uma agradável doença parasitária.

Sexual: adivinha? contaminação por relações sexuais não – protegidas.

Percutânea ou transcutânea: contaminação pelo contato da forma infectante pela pele.

É importante lembrar que existem situações em que a contaminação por esses parasitas é propícia. O crescimento acelerado das cidades sem um planejamento decente de infra – estrutura e saneamento básico, baixa qualidade de vida e condições de higiene, desastres naturais, nível de instrução da população e hábitos e costumes da mesma, são fatores que tornam fácil a disseminação dessas doenças.

O que seria um vetor?

Em parasitologia, o vetor é o animal que propaga a doença, a maioria são insetos. Ele pode ser classificado em biológico ou mecânico.

O vetor biológico é aquele que carrega o parasita dentro de si (sem que ocorra reprodução assexuada ou sexuada, senão ele seria o proprio hospedeiro!) e leva ele pra dar umas bandas, e ao alcançar o hospedeiro certo, tem o poder de contamina – lo. Um exemplo é o famoso “barbeiro”, o percevejo do gênero Triatoma, que, quando contaminado, é  vetor biológico do protozoário flagelado Trypanosoma cruzi.

Barbeiro Comendo um Rango

O vetor mecânico é aquele que não carrega o parasita dentro de si, mas em alguma parte externa do seu corpo. Por exemplo, formigas e baratas são insetos asquerosos que podem contaminar suas patas, pés, casco, nadadeiras seus ganchos, e quando andam por cima de alimentos, também os contaminam com essas bactérias. Se esse alimento for ingerido pelo ser humano, esse estará contaminado.

O que mais é importante saber por enquanto?

As definições de cisto e trofozoíta são importantes para a medicina.

Alguns parasitas conseguem “se encistar”. Quando o ambiente não é propício para que eles consigam sobreviver, eles viram cistos. Esses cistos são formas infectantes e muito resistentes. Quando esses cistos encontram o ambiente ideal (hospedeiro), ai os parasitas voltam com as suas funções normais.

Quando o parasita encontra – se na sua forma ativa dentro do hospedeiro, daí os chamamos de trofozoítos. É difícil conseguir observar trofozoítas em microscópio, porque o tempo de vida deles é curto fora do hospedeiro.

Os cistos são muito encontrados em fezes formadas, já os trofozoítas são comuns em fezes mais líquidas.

Como assim fezes formadas?

Podemos classificar as fezes em 4 etapas: formadas, semiformadas, pastosas e líquidas, de acordo com a fase de desenvolvimento no intestino. Em cada etapa de formação, no exame de fezes, podemos encontrar predominantemente cistos ou trofozoítos.

Cistos e Trofozoítos nas Fezes

Todos parasitas têm formas de cisto e trofozoítas?

Não. E isso é muito importante.

Como já dito, os trofozoítos não sobrevivem muito tempo longe do corpo do hospedeiro, sendo que os cistos são a principal forma de contaminação e disseminação do parasita. Mas, nem todo parasita tem cisto, então a contaminação tem que ser feita quando na forma trofozoíta. É o caso do protozoário causador da tricomoníase.

Já que o protozoário da tricomoníase não sobrevive muito tempo longe do corpo do hospedeiro, a contaminação só pode ser dada em contato direto do contaminado para o isento da doença. Agora é fácil entender porque a relação sexual é a principal forma de contaminação desse parasita! A contaminação através de roupas íntimas ou toalhas também é possível, mas o tempo entre o uso da roupa íntima ou da toalha deve ser curto.

Como nosso corpo responde a esses parasitas?

Os macrófagos, neutrófilos e plaquetas são a primeira linha de defesa do corpo contra esses parasitas.

O médico, ao desconfiar que o paciente está com algum tipo de parasita do tipo verminose, pode pedir um hemograma e conferir a quantidade de eosinófilos, pois eles são os principais anticorpos que indicam a presença desses parasitas.

Referências
Todas as informações foram obtidas no Curso de Verão da Universidade de Guarulhos no curso “Parasitologia Básica: Conceitos e Introdução as Práticas Diagnósticas” ministrado pelo Professor Mestre Silas Lobo no dia 23 de janeiro de 2012.